quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Nova Luz não prevê solução para viciados

TIAGO DANTAS

O projeto preliminar de revitalização da cracolândia, região que se tornou um dos símbolos da degradação do bairro da Luz, no centro de São Paulo, pretende diminuir a circulação de carros, incentivar o comércio já existente, atrair novos moradores e aumentar as áreas verdes. A solução para o problema dos viciados em drogas e dos moradores de rua, porém, não integra as intervenções urbanísticas apresentado nesta quarta-feira, 17, pela Prefeitura.

A revitalização do perímetro formado pelas avenidas Cásper Líbero, Ipiranga, São João, Duque de Caxias e pela Rua Mauá é prometida desde 2005. Em junho, a Prefeitura contratou o consórcio Nova Luz por R$ 12,4 milhões para elaborar um projeto que será executado pela iniciativa privada nos próximos anos.

A primeira fase desse plano trata das mudanças propostas para ruas e avenidas. Dentro de dois meses, a Prefeitura deve informar as modificações planejadas para os quarteirões e, por fim, o estudo de viabilidade econômica do projeto.

A Rua Vitória será uma das principais vias da Nova Luz, de acordo com o estudo. Em um trecho de pouco mais de 800 metros, o asfalto dará lugar a um calçadão arborizado que restringirá a passagem de carros. Haverá espaço para a passagem de bicicletas e a instalação das mesas dos bares e restaurantes. O desenho foi inspirado na La Rampla, rua turística de 1,2 quilômetro em Barcelona, na Espanha.

Formando um X com o novo calçadão, a Avenida Rio Branco também passará por reforma, caso a Nova Luz saia do papel. A ideia é diminuir uma das três faixas destinadas aos carros em cada pista para aumentar as calçadas e plantar árvores de médio porte. Os edifícios deverão ter uso misto: o térreo pode abrigar um restaurante ou um café, por exemplo, e os andares superiores ficam reservados a escritórios comerciais e apartamentos residenciais.

Para garantir que a região seja ocupada durante todo o dia, o consórcio projetou a mudança na iluminação. Os postes de luz da Rua Santa Ifigênia, por exemplo, deverão valorizar o comércio de produtos eletrônicos e equipamentos de informática que já é forte no local – os arquitetos norte-americanos que trabalham no projeto chamam a rua de “Eletronics Street” (Rua dos Eletrônicos).

A Rua General Osório também recebeu apelido – “Motorcycle Street” (Rua das Motos). A intenção lá é impulsionar o comércio de motos e de acessórios para carros.

Privilegiar a travessia de pedestres é uma atitude correta, na opinião do consultor de Transportes Sérgio Ejzenberg. “Mas se tira um modal, como o carro, precisa investir em outro”, opina. Para ele, o mais indicado seria investir no Metrô. “A prioridade vai ser o pedestre. Mas estudos estão sendo feitos para deixar o projeto o mais compatível possível”, argumenta o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Miguel Luiz Bucalem.

Além do exemplo espanhol, há outros projetos internacionais que inspiraram a Nova Luz. O Campo Santa Margherita, praça de Veneza, na Itália, serviu de base para a concepção do setor cultural e de entretenimento do bairro, que dará acesso ao Museu da Língua Portuguesa e à Sala São Paulo. Do Bryant Park, em Nova Iorque, Estados Unidos, saíram ideias para um parque no quarteirão entre a Rua Conselheiro Nébias e a Alameda Barão de Limeira.

Outra área verde ficará na esquina das ruas dos Andradas e dos Gusmões, próximo à área que será destinada aos apartamentos populares, uma nova escola e uma biblioteca. “O problema de se utilizar projetos estrangeiros é que, no exterior, há algumas diferenças: há a cultura do planejamento em obras públicas e de ampla consulta pública”, avalia a arquiteta Lucila Lacreta, do Movimento Defenda São Paulo.

“São referências ao que está sendo apresentado. Não necessariamente será feito daquela forma, mas elas projetam no futuro como vai ser”, opina o presidente da Cia.City, José Pereira Bicudo.

A empresa, responsável por projetar os bairros City Lapa e City Pacaembu, forma o consórcio Nova Luz com a norte-americana Aecon, que assina o projeto de revitalização de Londres para as Olimpíadas de 2012, a Concremat, que se ocupou do relatório de impacto ambiental da Luz, e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), que fez o estudo de viabilidade econômica.

Viciados: sem solução

Os viciados em drogas e os moradores de rua que perambulam durante todo o dia pelas ruas da Luz, no centro, continuarão dependendo das políticas públicas. A Nova Luz não prevê a construção de nenhum equipamento de saúde nem fala sobre intervenções nessa área.

“É uma questão muito importante para a gestão. Mas ela não está só na região que a gente quer revitalizar. Está no centro como um todo e em outras áreas da cidade. E o tratamento não pode esperar o projeto da Nova Luz”, afirma o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem.

“A abordagem é de atendimento social e de saúde. E isso tem sido feito”, relata o secretário. Arquiteto urbanista do Instituto Polis, Kazuo Nakano entende que o projeto urbanístico deveria aliar a falta de imóveis para famílias de baixa renda, a economia popular e as questões sociais.

“É necessário priorizar essas demandas sociais para que os investimentos e as intervenções públicas não sejam excludentes e não se limitem ao redesenho de espaços públicos e implantação de novos edifícios com arquitetura de grife”, opina.

Já Marco Antônio Ramos de Almeida, superintendente-geral da ONG Viva o Centro, acha que a reurbanização pode contribuir para diminuir o problema. “À medida que requalifica a área, essas pessoas vão se tornar mais propensas ao tratamento. E os traficantes vão se dispersar.”

Confira os principais pontos do projeto:











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