quinta-feira, 5 de maio de 2011

Defesa Civil de SP nega irregularidade em repasse de doação a desabrigados

Donativos para vítimas das chuvas do Rio foram repassados a fundação.
Entidade é ligada a vereador paulistano.


Juliana Cardilli do G1/SP
paca de lima (Foto: Juliana Cardilli/G1)Paca de Lima, da Defesa Civil, prestou esclareci-
mentos na Câmara Municipal de São Paulo na
manhã desta quinta-feira (Foto: Juliana Cardilli/G1)
O coordenador da Defesa Civil de São Paulo, Jair Paca de Lima, negou nesta quinta-feira (5) qualquer irregularidade no repasse de donativos arrecadados pelo órgão para uma instituição ligada ao vereador Ushitaro Kamia (DEM). Cerca de 250 kg de roupas e alimentos arrecadados em campanhas para os desabrigados no Rio de Janeiro e São Paulo pelas chuvas do início do ano foram repassados para a Fundação Oriente-Ocidente, ligada ao vereador. Foi a primeira vez que a instituição recebeu donativos da Defesa Civil.

Lima foi chamado para prestar esclarecimentos aos vereadores em reunião realizada na manhã desta quinta na Câmara Municipal, no Centro de São Paulo. O encontro foi convocado pelo líder do governo, Roberto Trípoli (PV). Segundo ele, uma sindicância já foi aberta na Defesa Civil. Reportagem da Rádio Bandeirantes desta quarta-feira (4) mostrou gravações em que uma funcionária da Defesa Civil disse ao telefone que doações seriam facilitadas com indicações de vereadores.

Mais de 300 toneladas de donativos foram arrecadas durante a campanha – destas, mais de 95 toneladas foram repassadas para o Rio de Janeiro e outras 105 toneladas foram distribuídas em São Paulo. O restante, que ficou na Defesa Civil, é encaminhado para instituições que façam pedidos.

Durante seu depoimento, o coordenador da Defesa Civil relatou como foi feita a campanha de arrecadação de donativos e garantiu que o encaminhamento de donativos não teve razões políticas e foi feita de maneira legal, sem nenhum pedido do vereador. “Não houve desvio de nada que foi repassado.”

Gravação
Paca de Lima chegou a questionar a veracidade da gravação veiculada pela reportagem. Para ele, pode ter ocorrido uma edição e as palavras ditas pela funcionária poderiam estar em outro contexto. Segundo Lima, a própria funcionária, que é concursada e está no órgão há mais de 5 anos, lhe disse que houve edição. “Foi ela que me disse, ‘Coronel, estão faltando palavras nessas afirmações, estão faltando frases nessas declarações’”, afirmou.

O questionamento foi repetido em entrevista aos jornalistas. “Se houve [orientação da funcionária], se é conforme está na declaração, foi único e exclusivo da cabeça dela, não é norma da Defesa Civil, não é praxe, não é uma prática da Defesa Civil”, afirmou.

A Rádio Bandeirantes negou qualquer manipulação da gravação e informou ao SPTV que tem a íntegra da entrevista. O vereador José Américo (PT) rebateu o questionamento, ressaltando que a gravação é cristalina e que é clara a indicação da funcionária a vereadores. Nesta quarta, a denúncia deixou os ânimos exaltadas na Câmara, já que, apesar de a funcionária ter feito menção a vereadores, no plural, apenas o nome de Kamia foi citado. Ele também afirmou que vai sugerir que a Corregedoria da Câmara abra uma sindicância e chame a funcionária que citou os vereadores para depor.

Amizade
O coordenador da Defesa Civil admitiu ser amigo de Kamia, mas disse que não teve nenhum contato com o vereador em relação ao repasse de donativos – que por isso, não teriam nenhuma conotação política. “O vereador Kamia é nosso amigo, como são todos os vereadores. Não há nenhuma ligação política. Nós atendemos toda a população. Tanto que se um empresário ligar lá, dizer que tem uma instituição legalizada, que atenda a população, nós estamos atendendo”, disse Lima. “Nós nunca recebemos nenhuma solicitação de vereador, nem pedido de deputado.”

O vereador Kamia não se pronunciou durante a reunião, mas negou em entrevista aos jornalistas que tenha pedido as doações para a Defesa Civil. “Eu fiquei indignado com essa denúncia, em momento nenhum eu estive em contato com a Defesa Civil. O relacionamento que foi feito foi de uma pessoa da Defesa Civil com uma pessoa de nosso gabinete que estrutura toda essa parte das associações. Foi isso que foi feito. Eu em nenhum momento interferi. Eu nunca solicitei para a Defesa Civil qualquer tipo de ajuda”, afirmou.

Kamia também não soube dizer por que a funcionária da Defesa Civil citou seu nome como um facilitador para o repasse de doações, e também negou seja prática da fundação Oriente-Ocidente pedir o número do título de eleitor para que haja o repasse. Em uma segunda gravação feita pela Rádio Bandeirantes, um funcionário da entidade diz que é preciso dar o número do documento para receber os donativos – o que levantou suspeitas sobre alguma motivação política.

“Em nenhum momento eu peço o titulo de eleitor. Ninguém anda com o titulo. Eu não sei por que ela colocou, ela falou que foi induzida antes da gravação”, disse o vereador. Ele ainda afirmou que não tem relações políticas com o coronel Jair Paca de Lima, e que não o auxiliou em sua campanha eleitoral para deputado estadual no ano passado.

Durante a reunião, o vereador Aurélio Miguel (PR) pediu um relatório dos repasses feitos para todas as instituições para a Defesa Civil e também a íntegra da gravação feita com a funcionária do órgão municipal pela Rádio Bandeirantes. A requisição da fita também será feita pela Corregedoria da Câmara.

Os ânimos chegaram a ficar exaltados no momento em que o vereador Adilson Amadeu (PTB) passou a fazer questionamentos.


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