terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Em quem eu votei mesmo?


GILBERTO AMENDOLA
Quando o desempregado Alex Ferreira, de 40 anos, deu o nome, sobrenome e o número dos deputados (estadual e federal) em que havia votado nas eleições do ano passado, a reportagem do Jornal da Tarde reagiu com incredulidade. “O senhor é militante ou filiado ao partido”? Tanta desconfiança tinha um motivo: depois de quase uma hora questionando os eleitores que passavam pelo Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, sobre em quem eles haviam votado em 2010, Ferreira foi o único que respondeu sem pestanejar, nem precisar de tempo ou ajuda.
A maioria das respostas começava com o clássico “se não me falha a memória…”, ou com um gaguejante “foi no, no… como é mesmo o nome dele?”. Alguns entrevistados esqueceram até em quem votou para governador e presidente – e quando acontecia de uma lembrança repentina, confundiam os cargos (“votei na Marta para governadora”, garantiu uma eleitora, sem recordar que Marta Suplicy foi candidata ao Senado).
Depois de colher depoimentos no Viaduto do Chá, o JT procurou especialistas em eleições para entender a já conhecida falta de memória do eleitor brasileiro. Por que esquecemos tão facilmente em quem depositamos nossa confiança? E quais são os problemas causados por este lapso?
Sem reflexão
Para o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas, o esquecimento do eleitor tem origem na falta de interesse do brasileiro médio por política. “O desinteresse é o mesmo antes e depois do voto. Isso se agrava nos cargos do Legislativo. A escolha do eleitor é feita em cima da hora, na base da recomendação de conhecido, da propaganda ou de leitura por cima. Não é voto refletido”, diz. “No mais, a maneira como votamos, em lista aberta, dispersa muito a atenção leitor”.
O cientista político Humberto Dantas, conselheiro da ONG Voto Consciente, acredita que o eleitor não se lembra dos deputados em que votou porque não sabe, exatamente, para que serve um deputado. “Lembra da campanha do Tiririca? Ele dizia algo como: ‘eu também não sei pra que serve um deputado federal. Então, vote em mim que depois eu te conto’. Isso era genial. Tem tudo a ver com a realidade do eleitor”.
Dantas acha que parte deste esquecimento poderia ser resolvido se adotássemos o voto distrital. “O problema está no nosso próprio sistema. Se fosse voto distrital, o eleitor estaria mais próximo dos deputados. Seria mais difícil esquecê-los”.
O cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, autor dos livros A Cabeça do Brasileiro e A Cabeça do Eleitor, resume o “esquecimento” em uma questão central: o déficit educacional do País. “O nosso nível de escolarização ainda é baixo. Estamos avançando, mas esse é processo lento. A falta de escolarização dificulta o comprometimento com o voto. Acredito que ainda vamos levar mais 10 anos para termos eleitores mais conscientes”.
Já para o sociólogo e professor da PUC Campinas Glauco Cortez, o “esquecimento eleitoral” é uma questão menor. “É muita informação na cabeça do eleitor. Esquecer nomes é natural. Não acredito que seja apenas um problema do eleitor brasileiro”. Cortez considera mais grave outro tipo de lapso. “O eleitor esquece ou não sabe a linha ideológica do seu voto. Não sabe se é de direita, esquerda… Isso é mais relevante do que meros nomes”.
Voto livre
A falta de memória do eleitor brasileiro poderia ser menos evidente se o voto não fosse obrigatório? Para o presidente da ONG Voto Livre, Paulo Marcelo Bandeira de Mello, a resposta é “claro que sim”.
“Na minha opinião, votar deve ser como doar sangue. Não precisa ser obrigatório para você saber que é importante”, diz Mello. Ele afirma que a “obrigatoriedade tiraria a ‘qualidade do voto”. “Quem vota obrigado não acompanha o político em quem votou, não cobra como deveria. Acho que é por isso que alguns políticos ainda defendem o voto obrigatório no Brasil.”
Mello também acredita que, além de facultativo, o voto deveria ser distrital. “Facilitaria o acompanhamento. Não teríamos mais essa distância entre eleitor e político”, diz.
Já o cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Analise, discorda deste ponto de vista. “A obrigatoriedade ou não do voto pouco tem a ver com a memória do eleitor. Nossa abstenção já está quase em 20% – igual à de muitos países europeus em que o voto não é obrigatório. Logo, acho que essa é uma questão pouco relevante em termos da qualidade do voto.”

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