sábado, 6 de outubro de 2012

Futuro senador troca verba para gramados por votos na periferia

PAULO GAMA
BERNARDO MELLO FRANCO
DE SÃO PAULO

Prestes a assumir uma vaga no Senado como suplente da ministra da Cultura, Marta Suplicy, o vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR) usa verbas da prefeitura para trocar obras em campos de futebol por votos e apoio político na periferia de São Paulo.

A estratégia tem transformado dirigentes de times amadores em cabos eleitorais de sua campanha à reeleição, concentrada na zona sul. A moeda do vereador, conhecido como Carlinhos na Câmara, é a instalação de gramados sintéticos, com valor estimado em R$ 1 milhão cada.

"São Francisco já falava: é dando que se recebe", disse a representantes das equipes em reunião acompanhada pela Folha na quarta-feira à noite, em Campo Limpo.

"Às vezes metem o pau em político, mas a gente não é recompensado pelo que a gente faz. O dinheiro é da prefeitura, sim, mas é verba minha. Verba a que o vereador tem direito", afirmou.

"O jogador marca o gol e corre para a torcida, mostra a camisa. Eu preciso mostrar a camisa. Sou o camisa 10 da região, é a coisa mais chata falar isso, mas falo mesmo."

Avener Prado/Folhapress
Crianças em campo de futebol com faixas do candidato a vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR) na zona sul
Crianças em campo de futebol com faixas do candidato a vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR) na zona sul

No encontro, ele cobrou a instalação de placas de sua campanha nos gramados e ameaçou cortar verbas para melhorias de quem não entregar os votos que espera receber amanhã.

"Antigamente, tinha uma dificuldade para saber quem ajudou e quem não ajudou. Hoje é a maior tranquilidade, a gente sabe urna por urna. Eu vou saber quem me ajudou quem não me ajudou."

Além de exercer controle político sobre a Subprefeitura de Campo Limpo, Rodrigues disse comandar os CDCs (Clubes da Comunidade), instalações esportivas em terrenos do município.

"Fui num campo outro dia e não tinha um carro com meu colante. Eu quase mandei destituir o CDC", contou, irritado. "Não é justo. Não é estupidez, isso é ingratidão. Mandei ver a casa dos diretores e não tinha uma plaquinha minha. Porra, não sabiam que eu era candidato?"

Em seguida, o vereador disse abandonar os campos cujos dirigentes não atuam em suas campanhas. E reconheceu que a prática é uma "judiação" com o povo.

"Fala um campo aqui que eu deixei... Deixei o do Independência. Porra, eles não tão comigo! Para que eu vou regar coisa que não dá fruto? É uma judiação pra população, mas eles que vão pedir pra quem eles votam", disse.

CENTRÃO

Considerado o principal líder do "centrão", grupo de vereadores sem nitidez ideológica que orbita em torno de todas as administrações municipais, Rodrigues é um político capaz de transitar em todos os partidos.

Na eleição para a prefeitura, negociou apoiar o petista Fernando Haddad, mas selou acordo do PR com o tucano José Serra. Mesmo assim, mantém a vaga de suplente de Marta graças a uma aliança com o PT em 2010.

Ele tem adiado a posse em Brasília, deixando São Paulo com um representante a menos no Senado, para fazer campanha de reeleição. Sua meta é garantir posto "reserva" nos próximos quatro anos e não ficar sem mandato caso Marta deixe o ministério.

OUTRO LADO

O vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR) afirmou ontem à Folha que não vê "nada de mais" no que falou durante a reunião da última quarta-feira. "Ameaça seria se eu prometesse para cumprir depois, mas já está tudo feito. Não tem como tirar."

Ele afirmou que verificaria os votos "urna por urna" para mostrar que tem prestígio na região para o próximo prefeito e que isso não significa pressão sobre os eleitores.

"Usei o linguajar que tem que ter. Se não usar o linguajar popular, não adianta."

Matéria publicada originalmente no Jornal Folha de S.Paulo

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