domingo, 27 de outubro de 2013

Óleo de peroba medicinal

Texto de Humberto Dantas
O processo para a criação de um curso de Medicina é tarefa das mais complicadas que conheci no mundo acadêmico. Pense na quantidade de exigências feitas num árduo processo! Em 2010, Lula lançou Dilma como sua candidata à Presidência no dia 13 de junho. No evento partidário cismou em falar que tinha participado de festa de formatura de Medicina com alunos bolsistas de seu PROUNI. Como esse programa não era tão antigo e um curso de Medicina consome muito tempo para ser concluído, sempre duvidei da informação. Mas quem sou eu para contestar aquilo que nunca antes se viu na história desse país? Na minha cabeça, ficou apenas uma pesquisa com a qual tomei contato faz alguns anos: famílias cujos filhos se envolvem nesse tipo de curso tendem a terminar o período de graduação mais pobres. Isso porque a mensalidade é altíssima, o custo do aprendizado é elevado e o estudante não tem chances de trabalhar ao longo da formação – mesmo sendo oferecida bolsa ao estudante, Medicina é tarefa dura demais.
 A despeito de tais aspectos, é louvável que um governo oferte bolsas para a formação de médicos. Medicina é sinônimo de status, e oferece ao seu formando o “título de doutor”, mesmo sem a defesa de teses de doutorado. A sociedade tende a aplaudir mais esse profissional do que a qualquer outro. Assim, formar médicos pode ser eleitoralmente interessante. E explica porque Lula não ofereceu como exemplo em seu discurso a diplomação de nutricionistas, cientistas sociais ou matemáticos. A mesma razão também levou, provavelmente, o ministro da Educação Aloízio Mercadante a divulgar 2.415 novas vagas em cursos de Medicina em pleno junho de 2012: ano de eleições municipais. E para comemorar a conquista de 80 dessas cadeiras, a cidade de Imperatriz-MA entrou em êxtase, destacando o Socorrão Municipal como hospital referência ao desenvolvimento dos estudos daqueles que acessam a ciência dos doutores.
Ademais, dizia o jornal O Progresso: o curso de Medicina é resultado de um esforço especial da governadora Roseane Sarney e do deputado federal Chiquinho Escórcio, que tinha seu nome destacado numa placa na entrada do município vizinho, João Lisboa. João Francisco Lisboa foi membro da Academia Brasileira de Letras, nascido em Pirapemas, cidade maranhense a mais de 500 quilômetros dali. Tamanha inspiração deve ter sido sugestão de outro membro da academia, o ex-presidente José Sarney, que mesmo representando o Amapá no Senado Federal, ilustrava homenagem a Escórcio em pleno Maranhão, afirmando ser do deputado a luta pelo curso de Medicina. Soma-se a todo esse esforço a destinação, segundo o jornal O Globo, de cinco médicos do Programa Mais Médicos pelo governo federal à Imperatriz em 2013. Isso porque não basta formar, eleitoralmente é necessário importar. E diante de tamanha complexidade no campo político, é bom destacar que o prefeito reeleito em 2012 da cidade é Sebastião Torres. Ou melhor: Sebastião Torres Madeira, o Dr. Madeira, médico, é claro. E nesse caso a medicina deve prescrever: óleo de peroba neles. Que segundo o comercial da década de 40 dizia: “a vida da mobília antiga e a longa vida da mobília nova”. Mobília? Entenda por “mobília” o que preferir.
Humberto Dantas
Cientista social, doutor em ciência política, professor do Insper e da FESP-SP, e colunista da Rádio Estadão.

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