sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Morador briga para salvar quintais na Vila Mariana

Roseli e Pedro Galuchi moram há 50 anos na rua Tranquili e reclamam da verticalização (Foto: JF Diorio/AE)


Mônica Pestana e Thiago Dantas
Para tentar impedir que as casas e seus quintais deixem de existir para dar espaço a grandes empreendimentos imobiliários, moradores da Vila Mariana, na zona sul da capital, criaram um foco de resistência com o intuito de impedir a construção de novos prédios na região. Uma moradora montou um blog contra a verticalização e o movimento começa a ganhar força com a criação de um abaixo-assinado contra a expansão dos empreendimentos.
Criado pela tradutora Carina Lucindo, de 31 anos, o blog Salvem os Quintais – Em defesa da vida, contra a verticalização exagerada foi a forma encontrada por ela para reunir quem não quer vender suas casas e sair da região.
Desde o meio do ano, donos de imóveis nas ruas Carlos Petit, Gregório Serrão e Joaquim Távora têm recebido propostas de incorporadoras. “Estamos sendo assediados por representantes de construtoras, e eles dizem que precisamos vender nossas casas”, conta Carina.
Vizinho da tradutora, o aposentado Claudio Zanine, de 64 anos, chegou a ouvir as ofertas, mas diz que não pretende abrir mão da sua residência. “Tem meu jardim nos fundos e os pássaros que fazem uma orquestra pela manhã. Não me imagino morando em outro local”, diz Zanine, que vive há mais de 40 anos na casa que foi construída pelo pai.
Mas nem todos pensam como o aposentado. Até agosto deste ano, quatro prédios residenciais foram inaugurados no bairro, de acordo com o Sindicato das Empresas de Compra, Locação e Administração de Imóveis Comerciais (Secovi).
A Vila Mariana foi o bairro da capital com maior número de lançamentos imobiliários em 2005, quando 22 edifícios foram construídos, e em 2008, com 18 prédios, segundo dados da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp).
O interesse imobiliário pela região é antigo, segundo os moradores. O aposentando Pedro Galuchi, de 55 anos, vive há 50 na Rua Professor Tranquili e acompanhou o processo de verticalização do bairro. Ao lado de sua residência foi construído um prédio em 2005 que bloqueou a entrada de sol no quintal da casa.

Carina Lucindo criou um blog e organiza um abaixo assinado contra a verticalização da região (Foto: Monica Pestana /AE)
“Ter um prédio aqui do lado trouxe outros problemas, como os carros que estacionam em frente à garagem e as rachaduras que apareceram na casa. Mas não vou me mudar daqui”, conta Galuchi. Mesmo com a posição bem definida, Galuchi continua enfrentando pressão para vender a casa e ainda recebe propostas de imobiliárias. “Ainda por cima oferecendo só o valor do terreno. Não vendo mesmo”, afirma.
O músico Osmar Barutti, de 60 anos, pianista do Sexteto do Jô, mora em uma travessa da Rua Joaquim Távora há mais de 20 anos e diz que é nítido o aumento de prédios na região. “Agora não se fala em prédio e, sim, em torres”. Para ele, o envolvimento dos moradores é fundamental para reverter a situação. “Quando a população se manifesta, a gente consegue segurar um pouco essa avalanche de prédios. Não vejo a necessidade de tantos lançamentos.”
“Esse tipo de mobilização nos bairros é legítimo”, opina o arquiteto e urbanista do Instituto Pólis Kazuo Nakano. “A verticalização da cidade é inevitável. Ainda mais com a escassez de terrenos. Mas temos que lutar para verticalizar com cuidado para conter os impactos desses prédios na vizinhança”, completa.
A manutenção de quadras com imóveis baixos acaba funcionando como um “respiro” para a cidade, segundo Nakano, evitando a formação de ilhas de calor.
“Essa verticalização exagerada está acontecendo em toda a capital. A Prefeitura não impõe limite, e a população fica à mercê do jogo de interesse do mercado imobiliário”, diz a arquiteta e urbanista Lucila Lacreta, diretora executiva do Movimento Defenda São Paulo.

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