domingo, 20 de maio de 2012

Área cedida ao Instituto Lula abrigou galeria de loja, posto e hotéis

Veterano do bairro diz que local deveria abrigar 'feirinha da madrugada'. Memorial da Democracia deverá abrigar acervo do ex-presidente.


Roney Domingos Do G1 SP
Área ao lado da estação da Luz a ser cedida ao Instituto Lula  (Foto: Roney Domingos/ G1)No canto inferior, parte da área  a ser cedida ao Instituto Lula, próxima à estação da Luz e de antigos hotéis (Foto: Roney Domingos/ G1)
A área de 4,3 mil metros quadrados na Rua dos Protestantes que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), anunciou que vai ceder ao Instituto Lula deverá abrigar o acervo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no chamado Memorial da Democracia. Mas o terreno, atualmente um estacionamento e um terreno baldio, abrigou durante quase meio século galeria de lojas, hotéis e posto de gasolina vinculados à época em que a antiga rodoviária da Luz era o principal ponto de chegada de migrantes a São Paulo. 
Para o comerciante José Odines Ângelo, de 77 anos, que foi proprietário durante 40 anos de seis boxes na antiga Galeria Mauá, demolida pela Prefeitura,  melhor seria se o terreno, mesmo sem edificação, abrigasse algo mais afinado com a antiga vocação do bairro: vender.

"Se fizesse uma feirinha da madrugada seria melhor para mim. Uma área de estacionamento de ônibus, de sacoleiro, para mim seria melhor. Se for construir outra coisa, problema é da Prefeitura. Para mim, tanto faz. O que eles fizerem aí é bem-vindo", afirmou.
José Odines lembra que a área abrigou, além da galeria Mauá, que tinha 33 boxes, um posto de gasolina, hotéis e, nos últimos tempos, "casinhas de curta permanência". Localizada ao lado da Estação da Luz e da antiga rodoviária, na área agora degradada e conhecida como Cracolândia, a galeria vendia roupas por atacado e a preços baixos e teve seu auge e declínio junto com o terminal rodoviário.
"Tinha muita gente, depois foi caindo, caindo, caindo", afirmou. Mantida a cena de hoje, o futuro memorial será vizinho do casarão em ruínas na esquina da Rua Mauá que ele suspeita ter sido um dos primeiros hotéis da cidade, bares populares e lojas de roupas íntimas no atacado como a de José Odines.
Área a ser cedida ao Instituto Lula  (Foto: Roney Domingos/ G1)Vista parcial de área a ser cedida ao Instituto Lula na Cracolândia (Foto: Roney Domingos/ G1)
O comerciante e outros vizinhos que não têm escritura do imóvel desapropriado pela Prefeitura de São Paulo ainda reivindicam na Justiça a posse dos bens para terem direito à parte da indenização por desapropriação. "Tinha posto de gasolina, ele recebeu. Tinha dois hoteis, umas lojinhas, eles receberam. Quem não tinha documentação não recebeu até hoje. Nós da galeria não recebemos até agora. Estamos com advogado para ver usucapião", afirma.
José Odines conta que há cerca de 50 anos o terreno vazio pertencia a uma empresa fabricante de bebidas. "Uma firma agropecuária comprou o terreno, construiu 33 boxes e vendeu. Só que quando a agropecuária quis a escritura, a companhia de bebidas não pode fornecer, porque tinha morrido alguém, tinha inventário. Então as partes se acomodaram e não saiu inventário e nem escritura definitiva. Ficamos apenas com o contrato de compra e venda na mão. Hoje a gente está lutando pela escritura definitiva, pelo usucapião", afirmou.
Projeto do memorial
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, disse na quinta-feira (17) que vai sancionar o projeto de lei que concede o terreno da área da Nova Luz para o Instituto Lula. “Evidente que vou sancionar”, afirmou. O projeto foi aprovado pela Câmara Municipal na quarta-feira (16) e estabelece a concessão.
Em 14 de março, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, e o diretor da instituição, Paulo Vannuchi, estiveram na Câmara para explicar aos líderes dos partidos o projeto de construção do Memorial da Democracia na área que será cedida ao Instituto Lula.
No dia 1º de fevereiro, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) levou pessoalmente o projeto à Câmara Municipal de São Paulo. Okamoto disse que a construção do museu não empregará dinheiro público. "Vamos captar recursos privados para construir", afirmou o dirigente. Ele afirmou que após a construção podem ser estabelecidos convênios com universidades e museus.
Ainda não há previsão de custo do projeto. Os idealizadores pretendem lançar um concurso para selecionar propostas arquitetônicas. O museu deverá abrigar cerca de 14 contêineres de material de interesse histórico acumulado pelo então presidente Lula ao longo de oito anos de mandato (2003-2010), entre eles cerca de 250 cartas diárias, centenas de bíblias e até três tornos mecânicos que o ex-presidente recebeu de presente.

Vannuchi afirmou que o imóvel não será sede do Instituto Lula, mas de um museu interativo nos moldes do Museu do Futebol, aberto gratuitamente ao público e dedicado a resguardar a memória da luta no país pela democracia. O Instituto Lula, hoje com sede no Ipiranga, deverá se mudar para outro imóvel, ainda em estudo, mas não funcionará no mesmo endereço do Memorial da Democracia.

O pedido de cessão do terreno partiu do instituto. Lula teve uma reunião com Kassab dias antes de o projeto ser levado à Câmara Municipal. "Nós queríamos fazer o pedido em nome do Instituto Lula, e não do Instituto Cidadania. Então houve todo um trabalho de montar o instituto, registrar, depois entrar em contato com o prefeito e fazer o pedido oficial", disse Okamoto.

Segundo Vannuchi, ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, o museu também fará referência a momentos históricos na luta pela democracia, como a abolição da escravatura e a campanha pelas Diretas sempre colocando a população como personagem central.

O termo prevê concessão do terreno municipal por 99 anos. Em contrapartida, o Instituto Lula deve ser aberto ao público e ter acesso gratuito a estudantes de escolas e universidades públicas, além de garantir que os documentos estejam acessíveis a instituições e órgãos públicos. O projeto é inspirado em outras experiências, como o Washington Monument, do Lincoln Memorial, nos Estados Unidos, o Instituto Fernando Henrique Cardoso e o Memorial JK.

Fonte: Portal G1

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