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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria

Por Milton Jung


Leio que o som dos celulares dos mortos na tragédia de Santa Maria insistiam em tocar. Era o grito de desespero de parentes que à distância mantinham a esperança de ouvir filhos, netos, sobrinhos e amigos. Uma sinfonia macabra para quem recolhia os corpos. Na tela do telefone encontrado na roupa de um dos mortos, teria 140 ligações. O número estava identificado: “Mãe”. Quantas mães sofreram a espera de serem atendidas, na madrugada passada, no interior do Rio Grande do Sul?

Vi na TV meninas e meninos ainda com roupa de festa caminhando sem destino e chamando o nome de amigos que jamais encontrarão. Aquelas roupas não eram apropriadas para o ambiente de desastre, mesmo porque foram vestidas para a alegria. Impróprias como o sistema de segurança, a arquitetura do ambiente e a estratégia de fuga pelo que se ouviu até aqui.

Soube de uma menina que teria pedido socorro pelo Facebook, último acesso que teve com vida. Morreu antes de a ajuda chegar, mas sua imagem, o que pensa, curte e compartilha permanecerá eternizada na rede social. Seu perfil assim como o das mais de duas centenas de jovens mortos continuarão a provocar nossa tristeza até serem deletados. O que não apagaremos é a dor das famílias diretamente atingidas pela tragédia. Nem o drama de pais que assistem aos seus filhos saírem de casa para se divertir, sem saber qual armadilha está sendo armada para eles.

Li, vi, ouvi, soube tudo pelos outros, pois estava distante de Santa Maria. Mas sofri muito como pai. E temo que o sofrimento de todos não será suficiente para aprendermos com os acontecimentos na Boate Kiss. Haverá consternação, indignação, pedidos de justiça, processo aberto e investigação. Haverá missa de sétimo dia, um ano, dois, dez anos. Tempo suficiente para que novas boates e casas de espetáculo sejam abertas e funcionem sem alvará nem responsabilidade.

Até a próxima tragédia !

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

E a chuva é que leva a culpa

Por Milton Jung


“Chuva mata um sem-número de pessoas”.
A manchete se repete a cada noticiário. Está no rádio, na TV, na primeira página dos jornais e em toda rede. Está errada na análise, apesar de certa na síntese jornalística. Editamos o cotidiano e neste exercício corremos o risco da injustiça e imprecisão, como neste caso em que a causa natural não tem culpa do que fazemos na natureza.
A chuva não matou, nós estamos cometendo suicídio.
Morreram às centenas neste verão porque ao tomarmos o rumo das cidades, há 50 anos, não preparamos o ambiente urbano para esta invasão. A cidade de São Paulo tinha 3,8 milhões de pessoas na década de 60 e, atualmente, conta (se é que dá pra contar) com mais de 11 milhões. Ganhamos uma cidade de Londres inteirinha, sem planejamento nem pensamento.
Esta população se espraiou desenhando uma mancha urbana por onde ainda não havia cidade – em alguns lugares é de se duvidar que já tenha. Sem encanamento jogou o esgoto no córrego, sem coleta despejou lá também o lixo produzido. Sem lei nem autoridade, ocupou terrenos, tomou a várzea do rio, escalou morros, e se amontoou nas favelas. Cada um se virou como pode.
Hoje, 20% dos que vivem em São Paulo estão no entorno das represas de Guarapiranga e Billings, que deveriam apenas nos servir a água já escassa na região metropolitana.
Os prédios cobrem suas áreas de lazer; as casas põem o cimento sobre a terra; os grandes pátios são pintados de asfalto; ruas e avenidas passam por cima do córrego; bairros são fundados abaixo do rio.
Gastamos – ou gastaram por nós – mais de R$ 1,3 bilhão para tirar área verde e construir novas faixas na Marginal e esquecemos de aumentar investimento para rebaixar a calha do Tietê.
Tiramos – ou tiraram de nós – R$ 12,8 milhões que deveriam ser colocados em obras antienchente na zona leste para terminar uma ponte estaiada no Tatuapé.
Não surpreende que em sete anos, a cidade de São Paulo que tinha 315 áreas de risco passou para 400. Surgiram mais de 12 por ano, apenas na capital.
Os gastos da prefeitura em publicidade subiram para R$ 126 milhões nem por isso se pensou em campanha permanente e medida educativa para mudar o comportamento do cidadão que joga lixo na rua.
Desperdiçamos mais de R$ 1 bilhão por ano enterrando lixo e não botamos um tostão na ampliação de centrais de reciclagem.
E a chuva é que leva a culpa?
Somos todos responsáveis pelo que assistimos no noticiário. Seja porque não cuidamos do nosso entorno, seja porque não cobramos de quem tem nas mãos dinheiro – o dinheiro dos nossos impostos -, equipamento e poder.
Se a chuva é natural, a tragédia é humana. E o que se fez no ambiente urbano, desumano.

Mílton Jung é jornalista, âncora do programa CBN São Paulo, idealizador do Adote um Vereador e autor dos livros "Conte Sua História de São Paulo" e "Jornalismo de Rádio".

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