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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

E a chuva é que leva a culpa

Por Milton Jung


“Chuva mata um sem-número de pessoas”.
A manchete se repete a cada noticiário. Está no rádio, na TV, na primeira página dos jornais e em toda rede. Está errada na análise, apesar de certa na síntese jornalística. Editamos o cotidiano e neste exercício corremos o risco da injustiça e imprecisão, como neste caso em que a causa natural não tem culpa do que fazemos na natureza.
A chuva não matou, nós estamos cometendo suicídio.
Morreram às centenas neste verão porque ao tomarmos o rumo das cidades, há 50 anos, não preparamos o ambiente urbano para esta invasão. A cidade de São Paulo tinha 3,8 milhões de pessoas na década de 60 e, atualmente, conta (se é que dá pra contar) com mais de 11 milhões. Ganhamos uma cidade de Londres inteirinha, sem planejamento nem pensamento.
Esta população se espraiou desenhando uma mancha urbana por onde ainda não havia cidade – em alguns lugares é de se duvidar que já tenha. Sem encanamento jogou o esgoto no córrego, sem coleta despejou lá também o lixo produzido. Sem lei nem autoridade, ocupou terrenos, tomou a várzea do rio, escalou morros, e se amontoou nas favelas. Cada um se virou como pode.
Hoje, 20% dos que vivem em São Paulo estão no entorno das represas de Guarapiranga e Billings, que deveriam apenas nos servir a água já escassa na região metropolitana.
Os prédios cobrem suas áreas de lazer; as casas põem o cimento sobre a terra; os grandes pátios são pintados de asfalto; ruas e avenidas passam por cima do córrego; bairros são fundados abaixo do rio.
Gastamos – ou gastaram por nós – mais de R$ 1,3 bilhão para tirar área verde e construir novas faixas na Marginal e esquecemos de aumentar investimento para rebaixar a calha do Tietê.
Tiramos – ou tiraram de nós – R$ 12,8 milhões que deveriam ser colocados em obras antienchente na zona leste para terminar uma ponte estaiada no Tatuapé.
Não surpreende que em sete anos, a cidade de São Paulo que tinha 315 áreas de risco passou para 400. Surgiram mais de 12 por ano, apenas na capital.
Os gastos da prefeitura em publicidade subiram para R$ 126 milhões nem por isso se pensou em campanha permanente e medida educativa para mudar o comportamento do cidadão que joga lixo na rua.
Desperdiçamos mais de R$ 1 bilhão por ano enterrando lixo e não botamos um tostão na ampliação de centrais de reciclagem.
E a chuva é que leva a culpa?
Somos todos responsáveis pelo que assistimos no noticiário. Seja porque não cuidamos do nosso entorno, seja porque não cobramos de quem tem nas mãos dinheiro – o dinheiro dos nossos impostos -, equipamento e poder.
Se a chuva é natural, a tragédia é humana. E o que se fez no ambiente urbano, desumano.

Mílton Jung é jornalista, âncora do programa CBN São Paulo, idealizador do Adote um Vereador e autor dos livros "Conte Sua História de São Paulo" e "Jornalismo de Rádio".

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Começa a temporada de enchentes na Grande SP

Adriana Ferraz, Fernanda Barbosa e Folha.com 
do Agora

Córregos transbordados, carros cobertos pela água, trens parados e pedestres ilhados. O verão ainda nem chegou e a temporada de enchentes já complica a vida dos moradores da Grande SP. O temporal de ontem à tarde provocou ao menos 23 pontos de alagamento, só na capital.
A situação mais crítica, porém, ocorreu no ABC, onde o temporal parou as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. Motoristas e pedestres tiveram de ser resgatados por botes do Corpo de Bombeiros, por volta das 17h30 --alguns ficaram presos no estacionamento da Uniban, na avenida Dr. Rudge Ramos, em São Bernardo.
A via Anchieta ficou inundada entre o km 10 e o km 14 e teve de ser fechada para o tráfego. A concessionária que administra a rodovia afirmou que o problema ocorreu em função do transbordamento do ribeirão dos Couros, que invadiu as pistas centrais, em ambos os sentidos. Na Imigrantes, houve lentidão entre o km 58 e o km 51 depois de uma colisão entre duas carretas e um veículo. A faixa central, no sentido capital, foi interditada durante a tarde.

domingo, 28 de novembro de 2010

Jardim Pantanal: dique só depois da chuva

Prevista para este mês, construção para conter águas do Tietê ficará só para janeiro; contrato de emergência custou R$ 70,5 milhões


Diego Zanchetta - O Estado de S. Paulo-


O prefeito Gilberto Kassab (DEM) admitiu ontem que as obras antienchente emergenciais na várzea do Rio Tietê, no Jardim Romano, extremo da zona leste da cidade, só devem ser concluídas no final de janeiro. A construção de um dique de 1,4 metro para conter as águas do rio foi contratada em junho, sem licitação, por R$ 70,5 milhões.
A previsão inicial de conclusão da obra, a principal intervenção contra os alagamentos do Jardim Romano, era novembro, segundo informou a Prefeitura no final de setembro, quando o Estado revelou a contratação sem concorrência, a maior da história do governo municipal. O bairro ficou conhecido após ficar cerca de 60 dias alagado durante o verão passado.
A justificativa da dispensa de licitação era justamente acelerar conclusão da construção do dique antes das chuvas do próximo verão. O valor engloba também a construção de um piscinão com capacidade para 35 milhões de litros, para onde a água escoada pelo dique será encaminhada.
Questionado sobre o prazo anterior, Kassab tergiversou. "É um mero capricho falar em janeiro. Pode ser o final de novembro, apesar de que já estamos no final do mês. A obra vai ficar pronta", argumentou o prefeito, que não respondeu se a cidade está preparada para as próximas chuvas.
Plano. Kassab anunciou ontem o início da elaboração de um plano diretor de drenagem da cidade. Para isso, contratou, também sem licitação e por R$ 4,1 milhões, o Departamento de Hidrelétrica da Escola Politécnica da USP. Mas projeto deve ficar pronto só em 24 meses.
"A cidade foi penalizada em gestões anteriores pela falta de investimento (no combate às enchentes). Os esforços têm sido bastante pesados agora. Eliminamos uma série de pontos críticos, mas é claro que o volume de chuvas não deve ser como o do ano passado", afirmou o prefeito. Kassab citou também as recentes chuvas como um dos empecilhos à conclusão das obras no Jardim Pantanal.
Ao assinar um contrato milionário sem licitação, Kassab repetiu recurso adotado pelo governo da ex-prefeita Marta Suplicy (PT) que rendeu processo de improbidade contra a petista. Em 2002, Marta gastou R$ 8 milhões sem licitação, com a Queiroz Galvão, para construir um piscinão de contenção às enchentes no Aricanduva, também na zona leste da cidade, alegando também calamidade pública. Naquele ano, Marta gastou R$ 50 milhões com contratos emergenciais. Uma ação do Ministério Público contra a obra foi aceita em agosto daquele ano pela Justiça. Em 2004, seu último ano à frente da Prefeitura, Marta gastou R$ 44 milhões em contratos sem licitação.
Chuvas. Mauro Tadeu de Barros, engenheiro hidrelétrico da USP que será um dos responsáveis pelo novo plano diretor de drenagem da cidade, afirmou que a previsão para este ano é de chuvas abaixo da média. "Mas, em se tratando da Bacia do Alto Tietê (onde fica a capital), estamos sempre sujeitos a fenômenos localizados", afirmou.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Chove chuva, chove promessa, chove desculpa, chove...

Por Carlos Magno Gibrail



E enche. As enchentes que abalam grande parte das metrópoles brasileiras são resultado de um longo processo de modificação e desestabilização da natureza por forças humanas. As várzeas foram ocupadas e impermeabilizadas, as árvores escassearam e o progresso que foi instalado não trouxe a compensação natural.
A adequação das dimensões de todo o sistema de escoamento das águas não foi realizada e os piscinões que poderiam equilibrar parte do processo não foram executados em quantidade desejável.
Ou seja, a atualização das medidas necessárias para bocas de lobo, bueiros e canalização de águas pluviais não foram planejadas nem efetivadas. Isto significa que estes equipamentos não atendem ao volume de águas atuais. Como sabemos as chuvas de hoje são maiores daquelas de antes pelo desmatamento, inclusive da Amazônia, e pelo aquecimento global. E a população aumentada não cuida e entope estes escoadouros com lixo e detritos orgânicos.
Contamos ainda com três milhões de pessoas que vivem em áreas de risco.
É por isto que com duas chuvas em véspera de verão a cidade de São Paulo já teve mortes por enchente.
As ações preventivas não foram completadas. Ficaram nas promessas. Menos mal que há uma semana tivemos a aprovação unânime no Senado da Medida Provisória 494 que trata da liberação de recursos da União para atender casos de calamidade pública, sem exigir trâmites burocráticos convencionais. Esta medida que será apresentada ao presidente da república para sanção, cria o SINTEC Sistema Nacional de Defesa Civil, que deverá receber todo o mapeamento nacional das áreas de risco.
Nesta linha de levantamento, a Prefeitura de São Paulo está concluindo um sistema que irá permitir avisar os três milhões de moradores que estão em área de risco. Através de quatro a cinco mil líderes comunitário informará com antecedência a chegada de chuvas pelo SMS dos celulares. O problema ainda assim não estará resolvido porque a imprecisão é comum no verão. Nesta ;ultima chuva às 20h previu-se chuva forte no sul e o vento mudou para o centro e o norte da cidade de São Paulo, onde às 22h começou a chover.
É a resolução do problema começando pelo efeito e não pela causa. Nas próximas eleições será melhor tratar de temas pertinentes às grandes necessidades coletivas e públicas e deixar religião e preconceitos individuais para as igrejas e demais comunidades. Antes disso deveremos refletir sobre dados como os mais de 50% de financiadores desta última campanha terem sido as empresas envolvidas na construção civil. Não se sabe, entretanto para quem e de quem foi o dinheiro doado.
É chover no molhado? Espero que não.
Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

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